Ozônio em grãos de café: evidências sobre desinfecção microbiológica

Ozônio em grãos de café: evidências sobre desinfecção microbiológica

31/03/2026
Ozônio em grãos de café - myOZONE e UFV

O papel da microbiota na qualidade do café

A qualidade do café, especialmente no segmento de cafés especiais, está diretamente relacionada não apenas às condições agronômicas, mas também ao controle microbiológico ao longo das etapas de pós-colheita.

Durante a colheita, processamento e secagem, os grãos estão expostos a uma ampla diversidade de microrganismos, incluindo bactérias, leveduras e fungos filamentosos. A presença e o desenvolvimento desses microrganismos podem:

  • comprometer atributos sensoriais
  • acelerar processos de deterioração
  • favorecer a formação de micotoxinas, como a ocratoxina A

Diante desse cenário, tecnologias que permitam reduzir a carga microbiana sem impactar a qualidade sensorial tornam-se estratégicas para produtores e para a indústria de alimentos.

Neste contexto, destaca-se a aplicação de ozônio incorporado na água por sistemas de microbolhas, tecnologia investigada em estudo conduzido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a myOZONE.

Base científica e autoria do estudo

O presente artigo é fundamentado no estudo:

“Coffee Ozonization in a Microbubble System: Ozone Reaction Kinetics, Inactivation of Mesophilic Bacteria and Fungi, and Grain Quality”

Autores:

  • Felipe Guimarães Abrantes Lacerda
  • Marcus Vinícius Assis Silva
  • Lêda Rita D’Antonino Faroni
  • Paulo Roberto Cecon
  • Ernandes Rodrigues de Alencar
  • Carollayne Gonçalves Magalhães
  • Luana Haeberlin
  • Emanoel Henrique Fialho Ferreira

Instituições envolvidas:

  • Universidade Federal de Viçosa (UFV)
  • Instituto Federal do Espírito Santo (IFES)

O estudo foi publicado na revista científica Food and Bioprocess Technology (2026), consolidando evidências robustas sobre a aplicação do ozônio em sistemas reais de pós-colheita de café.

Objetivo do estudo

A pesquisa teve como objetivo principal avaliar o uso de água ozonizada gerada por microbolhas como pré-tratamento antes da secagem do café, considerando quatro dimensões críticas:

  • cinética de reação do ozônio na água
  • eficiência na inativação microbiológica
  • impacto na qualidade sensorial
  • alterações físico-químicas da água de processo

Fundamentos da tecnologia: ozônio em microbolhas

O diferencial técnico do estudo está na utilização de um sistema de microbolhas para incorporação do ozônio na água.

Microbolhas, com diâmetro inferior a 100 µm, apresentam características que favorecem a eficiência do processo:

  • maior área interfacial gás-líquido
  • menor velocidade de ascensão
  • maior tempo de residência na água
  • maior eficiência de transferência de massa

Essas propriedades resultam em maior estabilidade do ozônio dissolvido, fator crítico para aplicações industriais.

O estudo demonstrou que a meia-vida do ozônio na água pode atingir até 63,59 minutos, dependendo da concentração inicial , indicando elevada estabilidade do sistema.

 

Ozônio em grãos de café com sistema de microbolhas

 

Cinética do ozônio: implicações para escala industrial

A cinética de dissolução e decomposição do ozônio foi caracterizada por meio de curvas de saturação e decaimento.

Principais observações:

  • maior concentração de entrada resulta em maior concentração dissolvida
  • a saturação ocorre aproximadamente em 40 minutos
  • a decomposição segue cinética de primeira ordem
  • maiores concentrações iniciais aumentam a meia-vida do ozônio

Do ponto de vista de engenharia de processos, esses resultados são fundamentais para:

  • dimensionamento de sistemas
  • definição de tempos de contato
  • otimização de consumo energético
  • controle operacional em escala industrial

Redução microbiológica: evidências quantitativas

O estudo demonstrou redução significativa da carga microbiana após o tratamento com água ozonizada.

Café cereja descascado:

  • redução de 1,13 log CFU/g em fungos e leveduras
  • redução de 0,54 log CFU/g em bactérias mesófilas

Café natural:

  • redução de até 2,98 log CFU/g em fungos e leveduras

Os resultados indicam que o efeito é mais pronunciado em cafés naturais, possivelmente devido à maior carga microbiana inicial e às características físicas do fruto.

Além disso, observou-se que o próprio sistema de microbolhas, mesmo sem ozônio, contribui para a redução microbiológica, possivelmente por efeito mecânico de desprendimento de microrganismos aderidos à superfície.

Mecanismo de ação do ozônio

O ozônio atua como um agente oxidante de alto potencial, promovendo a inativação de microrganismos por meio de:

  • oxidação de lipídios da membrana celular
  • degradação de proteínas e enzimas
  • danos ao material genético
  • formação de espécies reativas de oxigênio

Esse conjunto de mecanismos leva à perda de integridade celular e consequente inativação microbiológica .

Qualidade sensorial: preservação comprovada

Um dos principais pontos de atenção na aplicação do ozônio em alimentos é o risco de degradação sensorial.

Os resultados do estudo indicam que:

  • não houve diferença significativa na maioria dos atributos sensoriais
  • todas as amostras mantiveram pontuação superior a 80 pontos
  • os cafés permaneceram classificados como especiais

Em alguns casos, observou-se aumento da acidez, sem impacto negativo no score final.

Esses resultados sugerem que:

  • a ação do ozônio ocorre predominantemente na superfície
  • não há penetração significativa no interior do grão
  • compostos precursores de aroma e sabor são preservados

Impactos na coloração e integridade dos grãos

Foram observadas alterações de cor imediatamente após o tratamento, com diferenças perceptíveis em alguns casos.

Entretanto:

  • após a secagem, essas diferenças foram reduzidas
  • não houve impacto relevante na aparência final dos grãos
  • a qualidade comercial não foi comprometida

Do ponto de vista operacional, isso indica que o efeito oxidativo é superficial e não interfere na qualidade final do produto.

Sustentabilidade e tratamento de efluentes

Um dos resultados mais relevantes do estudo está relacionado ao impacto ambiental do processo.

A aplicação de ozônio contribuiu para a redução de parâmetros críticos da água de processo:

  • BOD final: 46,63 mg/L
  • COD final: 93,43 mg/L

Esses valores estão dentro dos limites regulatórios, evidenciando o potencial do ozônio como solução para:

  • redução de carga orgânica
  • tratamento de efluentes
  • viabilização de reuso de água

Além disso, o ozônio se apresenta como alternativa aos sanitizantes clorados, eliminando riscos associados à formação de subprodutos tóxicos.

Aplicações estratégicas na cadeia produtiva do café

Com base nos resultados, a tecnologia pode ser aplicada em diferentes pontos da cadeia:

Pré-tratamento antes da secagem

  • redução da carga microbiana inicial
  • maior estabilidade durante a secagem

Controle microbiológico para fermentação

  • padronização da microbiota
  • maior previsibilidade de processos fermentativos

Tratamento de água de processo

  • redução de impacto ambiental
  • potencial de reuso

Limitações e perspectivas futuras

Apesar dos resultados promissores, o estudo aponta oportunidades para aprofundamento:

  • avaliação de subprodutos da oxidação
  • validação em escala industrial
  • estudos com diferentes origens e safras
  • integração com processos de fermentação controlada
  • análise econômica e de viabilidade operacional

Conclusão

A aplicação de ozônio em água por meio de sistemas de microbolhas demonstrou ser uma tecnologia eficaz para a pós-colheita do café, apresentando:

  • redução significativa da carga microbiológica
  • preservação da qualidade sensorial
  • impacto ambiental positivo
  • viabilidade técnica para aplicação em escala

Trata-se de uma solução que transcende a sanitização, posicionando-se como uma ferramenta de controle de qualidade, padronização de processos e aumento de valor agregado na produção de cafés especiais.

Cliquei aqui para acessar o estudo científico completo.

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