Ozônio em grãos de café: evidências sobre desinfecção microbiológica
Ozônio em grãos de café: evidências sobre desinfecção microbiológica

O papel da microbiota na qualidade do café
A qualidade do café, especialmente no segmento de cafés especiais, está diretamente relacionada não apenas às condições agronômicas, mas também ao controle microbiológico ao longo das etapas de pós-colheita.
Durante a colheita, processamento e secagem, os grãos estão expostos a uma ampla diversidade de microrganismos, incluindo bactérias, leveduras e fungos filamentosos. A presença e o desenvolvimento desses microrganismos podem:
- comprometer atributos sensoriais
- acelerar processos de deterioração
- favorecer a formação de micotoxinas, como a ocratoxina A
Diante desse cenário, tecnologias que permitam reduzir a carga microbiana sem impactar a qualidade sensorial tornam-se estratégicas para produtores e para a indústria de alimentos.
Neste contexto, destaca-se a aplicação de ozônio incorporado na água por sistemas de microbolhas, tecnologia investigada em estudo conduzido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a myOZONE.
Base científica e autoria do estudo
O presente artigo é fundamentado no estudo:
“Coffee Ozonization in a Microbubble System: Ozone Reaction Kinetics, Inactivation of Mesophilic Bacteria and Fungi, and Grain Quality”
Autores:
- Felipe Guimarães Abrantes Lacerda
- Marcus Vinícius Assis Silva
- Lêda Rita D’Antonino Faroni
- Paulo Roberto Cecon
- Ernandes Rodrigues de Alencar
- Carollayne Gonçalves Magalhães
- Luana Haeberlin
- Emanoel Henrique Fialho Ferreira
Instituições envolvidas:
- Universidade Federal de Viçosa (UFV)
- Instituto Federal do Espírito Santo (IFES)
O estudo foi publicado na revista científica Food and Bioprocess Technology (2026), consolidando evidências robustas sobre a aplicação do ozônio em sistemas reais de pós-colheita de café.
Objetivo do estudo
A pesquisa teve como objetivo principal avaliar o uso de água ozonizada gerada por microbolhas como pré-tratamento antes da secagem do café, considerando quatro dimensões críticas:
- cinética de reação do ozônio na água
- eficiência na inativação microbiológica
- impacto na qualidade sensorial
- alterações físico-químicas da água de processo
Fundamentos da tecnologia: ozônio em microbolhas
O diferencial técnico do estudo está na utilização de um sistema de microbolhas para incorporação do ozônio na água.
Microbolhas, com diâmetro inferior a 100 µm, apresentam características que favorecem a eficiência do processo:
- maior área interfacial gás-líquido
- menor velocidade de ascensão
- maior tempo de residência na água
- maior eficiência de transferência de massa
Essas propriedades resultam em maior estabilidade do ozônio dissolvido, fator crítico para aplicações industriais.
O estudo demonstrou que a meia-vida do ozônio na água pode atingir até 63,59 minutos, dependendo da concentração inicial , indicando elevada estabilidade do sistema.

Cinética do ozônio: implicações para escala industrial
A cinética de dissolução e decomposição do ozônio foi caracterizada por meio de curvas de saturação e decaimento.
Principais observações:
- maior concentração de entrada resulta em maior concentração dissolvida
- a saturação ocorre aproximadamente em 40 minutos
- a decomposição segue cinética de primeira ordem
- maiores concentrações iniciais aumentam a meia-vida do ozônio
Do ponto de vista de engenharia de processos, esses resultados são fundamentais para:
- dimensionamento de sistemas
- definição de tempos de contato
- otimização de consumo energético
- controle operacional em escala industrial
Redução microbiológica: evidências quantitativas
O estudo demonstrou redução significativa da carga microbiana após o tratamento com água ozonizada.
Café cereja descascado:
- redução de 1,13 log CFU/g em fungos e leveduras
- redução de 0,54 log CFU/g em bactérias mesófilas
Café natural:
- redução de até 2,98 log CFU/g em fungos e leveduras
Os resultados indicam que o efeito é mais pronunciado em cafés naturais, possivelmente devido à maior carga microbiana inicial e às características físicas do fruto.
Além disso, observou-se que o próprio sistema de microbolhas, mesmo sem ozônio, contribui para a redução microbiológica, possivelmente por efeito mecânico de desprendimento de microrganismos aderidos à superfície.
Mecanismo de ação do ozônio
O ozônio atua como um agente oxidante de alto potencial, promovendo a inativação de microrganismos por meio de:
- oxidação de lipídios da membrana celular
- degradação de proteínas e enzimas
- danos ao material genético
- formação de espécies reativas de oxigênio
Esse conjunto de mecanismos leva à perda de integridade celular e consequente inativação microbiológica .
Qualidade sensorial: preservação comprovada
Um dos principais pontos de atenção na aplicação do ozônio em alimentos é o risco de degradação sensorial.
Os resultados do estudo indicam que:
- não houve diferença significativa na maioria dos atributos sensoriais
- todas as amostras mantiveram pontuação superior a 80 pontos
- os cafés permaneceram classificados como especiais
Em alguns casos, observou-se aumento da acidez, sem impacto negativo no score final.
Esses resultados sugerem que:
- a ação do ozônio ocorre predominantemente na superfície
- não há penetração significativa no interior do grão
- compostos precursores de aroma e sabor são preservados
Impactos na coloração e integridade dos grãos
Foram observadas alterações de cor imediatamente após o tratamento, com diferenças perceptíveis em alguns casos.
Entretanto:
- após a secagem, essas diferenças foram reduzidas
- não houve impacto relevante na aparência final dos grãos
- a qualidade comercial não foi comprometida
Do ponto de vista operacional, isso indica que o efeito oxidativo é superficial e não interfere na qualidade final do produto.
Sustentabilidade e tratamento de efluentes
Um dos resultados mais relevantes do estudo está relacionado ao impacto ambiental do processo.
A aplicação de ozônio contribuiu para a redução de parâmetros críticos da água de processo:
- BOD final: 46,63 mg/L
- COD final: 93,43 mg/L
Esses valores estão dentro dos limites regulatórios, evidenciando o potencial do ozônio como solução para:
- redução de carga orgânica
- tratamento de efluentes
- viabilização de reuso de água
Além disso, o ozônio se apresenta como alternativa aos sanitizantes clorados, eliminando riscos associados à formação de subprodutos tóxicos.
Aplicações estratégicas na cadeia produtiva do café
Com base nos resultados, a tecnologia pode ser aplicada em diferentes pontos da cadeia:
Pré-tratamento antes da secagem
- redução da carga microbiana inicial
- maior estabilidade durante a secagem
Controle microbiológico para fermentação
- padronização da microbiota
- maior previsibilidade de processos fermentativos
Tratamento de água de processo
- redução de impacto ambiental
- potencial de reuso
Limitações e perspectivas futuras
Apesar dos resultados promissores, o estudo aponta oportunidades para aprofundamento:
- avaliação de subprodutos da oxidação
- validação em escala industrial
- estudos com diferentes origens e safras
- integração com processos de fermentação controlada
- análise econômica e de viabilidade operacional
Conclusão
A aplicação de ozônio em água por meio de sistemas de microbolhas demonstrou ser uma tecnologia eficaz para a pós-colheita do café, apresentando:
- redução significativa da carga microbiológica
- preservação da qualidade sensorial
- impacto ambiental positivo
- viabilidade técnica para aplicação em escala
Trata-se de uma solução que transcende a sanitização, posicionando-se como uma ferramenta de controle de qualidade, padronização de processos e aumento de valor agregado na produção de cafés especiais.
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