Ozônio ferro e manganês na água mineral

Ozônio ferro e manganês na água mineral

26/10/2026
Ozônio ferro e manganês na água mineral

O uso de ozônio para oxidar ferro e manganês na água mineral exige compreender a composição da fonte, as reações envolvidas e o enquadramento regulatório. A capacidade de transformar esses elementos quimicamente não significa que o processo esteja autorizado para uma água comercializada como mineral natural.

Outra distinção orienta a avaliação: oxidar um metal não equivale a removê-lo. Quando a reação produz partículas, elas precisam ser separadas da água. Sem essa etapa, o elemento pode apenas mudar de forma e continuar no produto.

Vamos abordar aqui os fundamentos dessa relação e os cuidados necessários para interpretar estudos de aplicação, sem confundir água mineral natural com água potável submetida a tratamento.

Por que ferro e manganês aparecem na água

Ferro e manganês podem ocorrer naturalmente em águas subterrâneas pela interação com minerais do aquífero. Sua presença e forma química dependem das condições do ambiente, incluindo pH e disponibilidade de oxigênio. Também é necessário investigar possíveis contribuições das instalações, como corrosão de componentes em contato com a água. [1, 2]

Por isso, uma concentração medida no reservatório ou no produto envasado deve ser comparada com os resultados da captação. Essa comparação ajuda a distinguir características da fonte de alterações ocorridas ao longo do percurso.

Para mais informações sobre esse tema, consulte também o artigo Identidade hidrogeoquímica da água mineral: como avaliar.

Como o ozônio reage com o ferro

O ferro dissolvido pode estar presente na forma ferrosa, Fe²⁺. O ozônio pode oxidá-lo à forma férrica, Fe³⁺, que, conforme as condições da água, participa da formação de precipitados, como hidróxidos de ferro.

Essas partículas podem produzir coloração amarelada ou acastanhada, turbidez e depósitos. A transformação química precisa ser acompanhada da avaliação da separação dos sólidos: observar menos ferro dissolvido não comprova, isoladamente, redução do ferro total.

Um ensaio deve, portanto, comparar as frações dissolvida e total antes e depois da oxidação e da separação. Isso evita interpretar a precipitação como remoção concluída.

Por que o manganês exige atenção específica

O manganês dissolvido, frequentemente representado como Mn²⁺, pode ser oxidado a formas particuladas, incluindo óxidos de manganês. Entretanto, seu comportamento não deve ser deduzido apenas dos resultados obtidos para o ferro.

A composição da água e a demanda concorrente de oxidante influenciam a reação. Além disso, doses elevadas de ozônio podem favorecer a formação de permanganato, uma espécie solúvel associada à coloração rosada ou violeta. Aumentar a dosagem pode, portanto, prejudicar o resultado pretendido.

Essa possibilidade reforça a necessidade de avaliar uma faixa experimental de condições e verificar o manganês remanescente, em vez de buscar somente maior concentração de ozônio.

Oxidação e remoção são etapas diferentes

Em sistemas de tratamento nos quais essas operações sejam permitidas, a avaliação precisa abranger tanto a formação quanto a retenção das partículas. A documentação técnica da EPA descreve a necessidade de separar os sólidos gerados pela oxidação de ferro e manganês.

Ferro e manganês na água: diferenças na avaliação da oxidação
Aspecto Ferro Manganês
Forma dissolvida frequentemente estudada Fe²⁺ Mn²⁺
Transformação avaliada Oxidação e formação de precipitados férricos. Oxidação e formação de óxidos de manganês.
Atenção na interpretação Queda do ferro dissolvido não comprova queda do ferro total. Formação de partículas não garante separação eficiente.
Cuidado específico Verificar precipitados e depósitos. Investigar sobreoxidação e possível formação de permanganato.

Nota: A tabela descreve fundamentos de tratamento de água. Sua aplicação à água mineral depende das regras da jurisdição e da categoria do produto.

Quais dados devem compor a avaliação

Como roteiro de investigação, recomenda-se reunir resultados da fonte, das instalações e do produto final, com procedimentos de amostragem definidos. O conjunto pode incluir:

  • ferro e manganês nas frações total e dissolvida;
  • pH, alcalinidade, temperatura e condutividade;
  • turbidez, cor e características dos sólidos;
  • matéria orgânica e outros componentes que consomem oxidante;
  • brometo e, quando houver ensaio com ozônio, bromato;
  • ozônio dissolvido, condições de contato e eficiência de separação.

Os resultados devem permitir responder onde o metal está, em qual forma aparece e para onde vai após cada etapa. Um protocolo experimental também deve definir controles, repetições e critérios de aceitação antes da execução.

A relação com a formação de bromato

Quando a água contém brometo, a aplicação de ozônio pode formar bromato. O resultado depende da matriz e das condições de exposição; não pode ser previsto apenas pela concentração inicial de ferro ou manganês. A redução desses metais também não comprova controle dos subprodutos.

Assim, um estudo que demonstre oxidação eficiente ainda precisa examinar a segurança química da água resultante. Esse tema também pode ser conferido no artigo Bromato na água ozonizada: formação, risco e controle.

O que a referência europeia permite

Na União Europeia, as Diretivas 2009/54/CE e 2003/40/CE preveem, sob condições específicas, o emprego de ar enriquecido em ozônio para separar compostos de ferro e manganês de determinadas águas minerais naturais.

As condições incluem preservar a composição relativa aos constituintes essenciais, atender previamente aos requisitos microbiológicos e controlar os resíduos do tratamento. Há também exigências de comunicação à autoridade competente e de rotulagem. A previsão não equivale a uma autorização geral para desinfetar água mineral: a Diretiva 2009/54/CE proíbe tratamentos de desinfecção dessa categoria.

Como interpretar o tema no Brasil

No Brasil, a Resolução ANM nº 193/2024 estabelece, no artigo 35, que não é permitido o tratamento da água mineral, natural ou potável de mesa no contexto do envase. O artigo 39, § 2º, também veda o tratamento da água mineral ou potável de mesa.

A RDC Anvisa nº 717/2022 estabelece requisitos sanitários e limites de substâncias para águas envasadas. Atender a um limite analítico não substitui o atendimento às regras aplicáveis ao processo.

Portanto, demonstrar oxidação de ferro e manganês em laboratório, ou citar uma prática europeia, não autoriza sua implantação na água mineral brasileira destinada ao envase. Estudos devem ter finalidade e enquadramento próprios, separados da operação comercial.

Da análise da fonte à decisão técnica

A avaliação deve começar pela caracterização da água e pela identificação do problema. Em seguida, é necessário verificar quais intervenções são admissíveis antes de selecionar equipamentos ou definir condições operacionais.

Converse com a equipe da myOZONE sobre a organização dos dados da fonte e o escopo de uma avaliação técnico-científica, considerando a finalidade pretendida e os limites regulatórios do projeto.

Referências técnicas e regulatórias

  1. Health Canada. Guidelines for Canadian Drinking Water Quality — Iron. https://www.canada.ca/en/health-canada/services/publications/healthy-living/guidelines-canadian-drinking-water-quality-guideline-technical-document-iron.html
  2. Health Canada. Guidelines for Canadian Drinking Water Quality — Manganese. https://www.canada.ca/en/health-canada/services/publications/healthy-living/guidelines-canadian-drinking-water-quality-guideline-technical-document-manganese.html
  3. US EPA. Alternative Disinfectants and Oxidants Guidance Manual. https://nepis.epa.gov/Exe/ZyPURL.cgi?Dockey=2000229L.TXT
  4. União Europeia. Diretiva 2003/40/CE. https://eur-lex.europa.eu/eli/dir/2003/40/oj?locale=pt
  5. União Europeia. Diretiva 2009/54/CE. https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:32009L0054
  6. ANM. Resolução nº 193/2024. https://anmlegis.datalegis.net/action/UrlPublicasAction.php?acao=abrirAtoPublico&num_ato=00000193&seq_ato=000&sgl_orgao=DC%2FANM%2FMME&sgl_tipo=RES&vlr_ano=2024
  7. Anvisa. RDC nº 717/2022. https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&numeroAto=00000717&orgao=RDC%2FDC%2FANVISA%2FMS&seqAto=002&tipo=RDC&valorAno=2022

Referências consultadas em 26 de outubro de 2026.

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